segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Manuela.

A luz inconstante das velas fazia com que as sombras dançassem nas paredes, numa lenta, ritmada e fantasmagórica coreografia. No ar, o perfume exalado pelas flores dominava e, somado ao calor da lareira, tornava o ambiente sepulcral. Os únicos sons na casa eram o da lenha que estalava com o fogo, do tic-tac do antigo relógio que pertencera à mãe e dos talheres que Adolfo cuidadosamente dispunha na mesa. Era um ritual para a sua amada, Manuela. Foi durante o enterro da própria mãe que Adolfo conheceu Manuela. A fotografia dela sorria para ele, com os seus olhos radiantes naquele rosto perfeito. O amor foi à primeira vista e acabou por dominar a sua vida. Manuela havia morrido aos 27 anos, cinquenta anos antes de Adolfo a ter visto pela primeira vez. Para ele, tratava-se de uma obra do destino. A morte dela havia servido para congelar o tempo, para mantê-la à espera dele, eternamente jovem. Ele a visitava todos os dias e mantinha o seu túmulo sempre limpo e com flores frescas. Aos sábados, preparava um jantar que consumia sozinho, mas sempre com outro lugar posto à mesa, com outro prato e outro copo servidos. Esta noite, intuitivamente, ele sabia que seria diferente. O velho relógio começou a anunciar uma nova hora, num total de doze badaladas. Lá fora, o vento agitou as árvores e o ranger do portão anunciou a visita. O coração de Adolfo acelerou de alegria e ansiedade. Passos na escada, um forte cheiro de terra molhada invadiu a sala. Três batidas na porta ecoaram pela casa. A mão de Adolfo girou lenta e nervosamente a maçaneta, no mesmo ritmo em que um sorriso crescia nos seus lábios. Na sala, as velas agitaram-se ainda mais com a entrada do vento. Nas paredes, dançou com ainda mais força a sombra da forca que estava preparada para depois do jantar. Manuela, finalmente, tinha vindo e tudo o que Adolfo mais queria era voltar com ela.

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"Manuela" foi escrito ao som de Suuns.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sozinho.

Ele acordou com uma estranha sensação. Algo estava diferente dos outros dias e, só depois de ter levantado da cama, descobriu o que o incomodava: era o extremo silêncio daquela manhã. Nenhum carro passava na rua, os elevadores não trabalhavam, nenhum vizinho arrastava cadeiras ou andava pela casa. Ele saiu e andou pelas ruas, mas não havia ninguém. Todos os carros estavam parados, todas as lojas estavam fechadas. Ele tentou ligar para os amigos, para o trabalho, tudo em vão, ninguém atendia em lugar nenhum. A primeira sensação foi de liberdade, mas este sentimento rapidamente se transformaria em angústia. Ele considerou tratar-se de um sonho, porém, aquilo era real. Passou o dia vagando à procura de alguém, sem sucesso. Voltou para casa, dormiu e esperou que no dia seguinte tudo estivesse diferente. Mas a manhã do outro dia foi igual. E a outra também, e a outra idem. O suicídio seria uma solução, mas de que valeria morrer sem ter ninguém para chorar a sua perda? Passou assim o resto dos seus dias, sozinho, isolado, perdido na ausência de todos a quem amava, a quem odiava, a quem não conhecia. Ele experimentou, para sempre, a experiência de ser a última pessoa à face da Terra. Ele não entendia o que poderia ter acontecido, só sabia do vazio que sentia mas, o que ele não imaginava, é que não era o único.

terça-feira, 9 de março de 2010

Ladrões de Almas.

Na penumbra das vazias e estreitas ruas, a pequena Lilith andava nervosa, sobressaltada, olhando o tempo todo para trás. Uma sombra inesperada fazia com que as veias se contraíssem e o corpo gelasse. As malditas ratazanas faziam o coração disparar sempre que cortavam o seu caminho. A única luz vinha de lamparinas através das janelas dos velhos prédios. Das mesmas janelas, ouviam-se vozes, vidros que se quebravam, portas que batiam. A vida no interior das casas, porém, não atenuava em nada a tensão causada pelo deserto das ruas. A qualquer esquina, Lilith sabia que poderia encontrar um dos Ladrões de Almas, criaturas da noite, demônios de cara grotesca e de olhos vermelhos que sorviam a alma de quem encontrassem. As vítimas tornavam-se mortos-vivos que vagavam sem destino até serem recolhidos pela polícia. Uns diziam que os corpos sem alma eram mandados para o hospício, outros diziam que eram queimados, mas este era um segredo que só as autoridades conheciam. Um bêbado, surgido de um beco, fez com que Lilith soltasse um grito alto. O pobre ébrio não teve reflexos para resistir e ainda tentou lutar, mas a pequena Lilith, ao mesmo tempo em que ficou com a cara desfigurada, adquiriu uma força descomunal. Agarrada à cabeça do homem, a menina ignorava os socos e sugava, através dos olhos do desgraçado, uma espécie de energia em forma de luz azul pálido. Em casa, a mãe de Lilith, preocupada com os perigos da noite, rezava para que nada de mau acontecesse à filha.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

As caras da morte.

A psicóloga fingia interesse, enquanto a mãe da menina narrava a fantasiosa história. Segundo a mulher, a filha conseguia prever, de forma inusitada, a morte de quem estivesse prestes a ter a vida interrompida. A criança, dizia a mãe, olhava para alguém e "via" a cara que a tal pessoa teria quando morta. E, sempre que tal sucedia, esta pessoa morria menos de um mês depois. Fora assim com o primo mais velho, a quem vira com a cara toda escura e inchada e que, uma semana depois, morrera vítima de agressão numa festa; fora assim com o avô, a quem vira a cara contorcida e que morrera na sequência de um AVC; fora assim com o vizinho que "tinha um furo do lado da testa" e que suicidara-se com um tiro. A pobre mulher dizia que estas coisas estavam deixando a família bastante assustada. A psicóloga achava tudo aquilo muito exagerado e já começava a perder a paciência. Esta era a última consulta do último dia de trabalho antes das férias. Mais uns dias e a competente psicóloga infantil seria, também, uma feliz esposa e rumaria para a tão sonhada lua-de-mel. No entanto, uma semana mais tarde, o ceticismo desapareceria pouco antes do embarque no voo para a Nova Zelândia. Por mais que tentasse, a psicóloga não conseguia afastar a lembrança da expressão assustadora da pequena menina, naquele dia, enquanto apontava para ela e gritava: " A Doutora está com a cara toda derretida".

domingo, 7 de junho de 2009

O inusitado encontro de Caio e Augusto.

Quando deixou o seu escritório, no 31º andar, para ir almoçar, Augusto jamais imaginou que conheceria Caio e muito menos as condições que tornariam este encontro inesquecível. Nos subterrâneos da cidade, Caio nunca sonharia que, algum dia, alguém como Augusto poderia alterar o rumo do seu destino. O agente de modelos e o responsável pela manutenção do sistema de esgotos. Viviam em mundos diferentes, porém, dividiam a tendência para alucinações. As visões de Augusto eram resultado do excesso de drogas e de bebidas caras; as de Caio, eram causadas pelo ar contaminado das fétidas galerias onde as únicas companhias eram enormes baratas e despreocupadas ratazanas. A alucinação mais assídua de Caio era a do homem que, elegantemente vestido de preto, ficava a observá-lo do fundo da galeria. E foi com esta aparição que Caio resolveu que era hora de sair para almoçar. Augusto pisou fundo no acelerador do seu Ford Cobra 427. Caio pisou firme no primeiro degrau da ferrugenta escada. Augusto sentiu a carícia do vento; Caio, o ar fresco lambendo o seu rosto, pela última vez. No seu depoimento, o agente de modelos afirmaria que, se havia perdido o controle do carro, era por culpa de um homem de preto que ninguém mais viu. Porém, do inusitado encontro, a imagem que perseguiria Augusto para sempre seria a da cabeça de Caio, sem corpo, rolando pela rua abaixo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Curupira.

O acampamento ficava num buraco, aberto pela madeireira, na floresta amazônica. A escuridão, vinda das profundezas da mata, cercava o local e engolia a parca luz presente. O mal-estar, que chegou quase ao mesmo tempo a todos os trabalhadores, não era causado apenas pelo insuportável calor equatorial, tratava-se mais de uma estranha sensação de que alguém os observava. O ar, de repente, tornou-se denso. A inquietação e o nervosismo contagiaram a todos. Da floresta, ouviram-se assobios agudos que fizeram arrepiar os pelos até dos mais valentes. Nas árvores, uma agitação. No chão, galhos e folhas eram pisados. Ninguém via nada, mas a histeria coletiva espalhou-se e o acampamento transformou-se num retrato do inferno. Homens gritavam e corriam para todos os lados. O supervisor agitava freneticamente uma moto-serra para tentar se defender de ameaças invisíveis, mas acabou por mutilar alguns dos seus próprios companheiros. Alguém tropeçou e caiu com o pescoço sobre a ponta de um galho. A maioria, porém, correu de forma desorientada para a floresta e não conseguiu mais encontrar o caminho de volta. Mas foi com ceticismo que os guardas ouviram esta descrição dos acontecimentos. O relato vinha do único sobrevivente encontrado, 18 horas depois. O homem estava esgotado, confuso e com os olhos vidrados nas árvores. O que os guardas não viram, foi o motivo do olhar mesmerizado do homem. Camuflado na floresta, um pequeno ser de cabelos vermelhos e de pés virados para trás, sarcástico, sorria para ele com os seus afiados dentes verdes.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Uma conversa no divã.

Posso dizer que não tenho traumas nem nada assim, doutor. Da primeira vez, os meus pais até foram processados por negligência por eu ter apenas seis anos, coitados. A verdade é que eu disparei contra o meu amigo só por curiosidade, e gostei. O segundo foi anos mais tarde, matei um ladrão que tentava roubar a nossa casa, mas foi por prazer de matar, não para evitar o roubo. Mesmo assim, virei herói da cidade. O terceiro foi na universidade. Provoquei um acidente de carro e quase morri junto com o meu colega. E, mais uma vez, eu não fui acusado de nada, as pessoas só demonstravam solidariedade comigo, o sobrevivente. Quer saber quantos eu já matei, doutor? Bem, não se assuste, mas eu parei de contar depois do trigésimo. Não sei explicar, eu preciso disso como quem precisa de nicotina, de cocaína, de cafeína. Já experimentei de tudo: armas de fogo, bastões, veneno mas, hoje, prefiro deixar os meus escolhidos assim, amarrados, olhando para mim enquanto sangram até morrer. Acho que é preciso dar este tempo para cada um, do seu jeito, pensar na efemeridade da vida. Concorda comigo doutor? Doutor? Oh, doutor, pelo amor de Deus, não acredito. O senhor já morreu... e me deixou aqui falando sozinho.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O último dia de vida de um presunçoso.

Acordou com a certeza de que aquele seria o seu último dia de vida. Anunciou a profecia aos amigos, colegas e parentes. Pensou em viver intensamente as suas últimas horas. Mas, ao invés disto, teve um dia paranóico, esperando a morte em cada cruzamento, em cada esquina, em cada mínima manifestação do seu corpo. Em casa, à noite, depois de um dia sem incidentes, sentou-se olhando para o relógio e esperou, esperou, esperou. Quando faltava um minuto para a meia-noite, saltou da janela do sétimo andar, só para ficar com a razão.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sono Profundo.

Ele não morreu. Dormiu e nunca mais acordou. — Explicou a mulher com as suas olheiras encovadas e olhos de sangue.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Cobaia.

Na penumbra, os recém despertos olhos mal conseguiam ver o que estava no fundo da sala. Não sabia onde estava e o silêncio era do mais absoluto que ele jamais ouvira, se é que o silêncio seja coisa que se ouça, ainda mais absoluto. Ele não sentia nada do seu corpo, nem mesmo um simples pestanejar era possível. A sua última lembrança era a de estar na cama com uma das suas amantes, a quem chamava namoradas. Elas eram todas mulheres mais velhas, todas casadas, todas carentes por conta da dedicação total dos maridos aos respectivos trabalhos. Ele não se considerava um profissional, não cobrava nada, contentava-se com os presentes que ganhava e que iam de carros a roupas caras. Naquela tarde, ele havia estado com a mulher do cientista, os dois tinham sido flagrados pelo homem que chegou mais cedo e depois... Depois ali estava ele, sem adivinhar que o cientista já sabia dos encontros vespertinos e que via no amante da mulher a cobaia perfeita - jovem, saudável e dispensável - para comprovar a sua teoria. A visão, por fim, encontrou o seu foco revelando que o fundo da sala era, na realidade, um espelho. Ele teria gritado, se pudesse. Entre computadores, fios e tubos havia o que parecia ser um aquário. Dentro do vidro, numa espécie grotesca de conserva, ele viu e logo percebeu: tudo o que restava da sua existência era um par de olhos ligados a um cérebro.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Medo de morrer.

para o tio Claro.

Tinha tanto medo de morrer que decidiu eliminar todos os riscos. Na segurança de casa, limitou-se a ficar sentado no sofá, olhando o mundo da janela. Nesta mesma posição, foi encontrado quatro dias depois, morto.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O homem que tudo confessava.

Ninguém ficou surpreso quando, apressado, Alfredo chegou para assumir as culpas por um violento crime. Aquele homenzinho franzino, meio gago e cheio de tiques já era figura folclórica para a polícia da cidade. Bastava que um assassinato fosse noticiado e lá aparecia ele para confessar, sempre alegando os motivos mais absurdos: "era muito feio", "estava mal vestida", "fazia um ruído irritante quando comia". Ninguém levava Alfredo realmente a sério. Ouviam os seus depoimentos meio por obrigação, meio por diversão. Mas quem realmente se divertia com estas confissões era o próprio confessor. Dono de talentos inimagináveis e de uma inteligência invejável, Alfredo sabia que estaria mais livre quanto mais o subestimassem. Por isso, continuaria confessando tudo de uma forma tão absurdamente sincera que, mesmo com todas as evidências, nunca ninguém acreditaria nos seus crimes. Além disso, ele adorava o café da delegacia.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A médium.

— Oh, Maria, se você tivesse chegado há cinco minutos, teria visto. Era a minha avó, ela deixou estas flores, sorriu para mim e, depois, foi embora por aquela trilha ali, até desaparecer no bosque.
— Que bom, Beth, mas posso saber o porquê desta carinha tão assustada?
— Maria, a minha avó morreu há... há muitos anos. Eu já falei sobre isso, por que você não acredita em mim?
— Eu acredito em você, Beth. Você é que não acredita em mim.
— Eu acredito, Maria, eu acredito sim.
— Então, ouve com muita atenção o que eu vou dizer.
— Não... não... eu já sei o que você vai dizer e não quero ouvir, por favor, Maria, por favor.
— Mas é importante, minha querida, só assim você vai ter paz. Beth, por favor, aceite isto, você morreu há mais de 20 anos...
— Não, Maria, não... Não! — E mais uma vez o espírito de Beth desapareceu, mas ainda não seria desta vez que iria embora.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A visita.

Ainda deitada, coberta pela escuridão, ela rezava para que tivesse sido apenas um sonho. Mas de nada adiantariam as suas preces, pois o ruído que a tinha acordado provou ser bem real. Definitivamente, estava mais alguém no apartamento. Sentindo o coração disparar, Jane levantou-se e, devagar pela casa escura, foi até a sala. O grito foi engolido e a respiração suspensa quando ela se deparou com a inusitada e assustadora cena. Sobre o sofá, iluminada apenas pela luz da lua, estava uma figura encolhida, totalmente envolta na colcha que costumava cobrir este mesmo sofá. Aquela pequena e desconhecida criatura tremia muito, respirava de forma sôfrega e soltava uns suspiros agudos, num arrepiante lamento. Jane ainda perguntou quem era, mas isto só fez a criatura tremer ainda mais, como num calafrio. A dona da casa pensou em correr, em acender a luz, mas não fez nada disso. Avançou lentamente, vacilante, sem desviar os olhos. Com o corpo afastado, aproximou apenas a mão e logo se arrependeu. Uma outra mão, esta enrugada e com longos dedos tortos, surgiu da colcha e segurou com força o braço de Jane que, num forte puxão, livrou-se e fugiu. Enquanto corria, ainda teve a impressão de ouvir gargalhadas atrás de si. Desde esta noite, Jane vive atormentada por uma dúvida baseada numa certeza. Quando será a próxima visita?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Diálogo entre os seguranças do museu na madrugada de quinta, data da misteriosa e violenta morte de Carlos.

— Carlos, detectei uma intrusa na ala oeste, atrás de você, no fundo do corredor. Pode verificar?
— Positivo, central, mas não vejo nada daqui.
— Mas eu estou vendo aqui mesmo, no meu monitor... espera, ela acabou de virar para o corredor norte.
— Positivo, não vi nada, mas ouvi alguma coisa, vou verificar.
— Ei, ela desapareceu... simplesmente desapareceu....
— Aaaah... central, acabo de ser agredido, mas... mas não há ninguém aqui.
— Carlos, não vejo nada aqui, você está sozinho, mesmo. O que se passa?
— Aaah... outra vez. Alguém arranhou as minhas costas, acho que estou sangrando.
— Carlos, ela apareceu de novo, não sei de onde... acaba de entrar no banheiro feminino atrás de você.
— Ok, estou entrando no banheiro e... meu Deus... meu Deus... Aaaaah!
— Carlos, está tudo bem? Carlos, responda. Carlos... Carlos...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ímpar.

Olaf vivia obcecado por uma religiosidade inventada por si próprio. A sua crença incluía uma fixação doentia por números ímpares: Um, o número que representa o Deus único, o homem, o pilar que tudo sustenta. Três, a Trindade, a ressurreição de Cristo no terceiro dia, a unidade familiar, os três poderes. Cinco, o número do pentagrama, dos cinco elementos. Sete, o único número sagrado em todas as culturas. Nove, o número de tudo o que é novo, do período da gestação humana. O próprio nome confunde-se com o “novo” na maior parte das línguas. Nove, o número que assinala a transição de uma fase do desenvolvimento espiritual para outra. Nove! E, gritando o nome do número, o obsessivo homem levantou o machado e desferiu um golpe firme e certeiro. Sem nenhuma manifestação de dor, Olaf apenas ergueu a mão mutilada e coberta de sangue e sorriu. Já não tinha mais dez dedos.

domingo, 30 de novembro de 2008

Em branco.

A memória desapareceu com o virar da chave. Ainda olhando para a porta do próprio escritório que acabara de fechar, o homem não sabia que lugar era aquele, nem o que fazia ele ali. Tentou, num esforço angustiante, lembrar do próprio nome, mas nada vinha à mente. Tirou a carteira do bolso, olhou os documentos, mas não reconheceu aquele nome que, supostamente, seria o dele. Entrou no elevador e deparou-se com uma cara no espelho, era a mesma das fotografias dos documentos, mas ele não sabia quem era aquela pessoa. Num dos bolsos, uma chave de carro e, no outro, um celular. A chave não servia de nada, pois nem sabia se tinha carro. Passou toda a agenda do celular, mas aqueles nomes eram todos estranhos. Assustado, jogou tudo no lixo: carteira, chaves, celular. Na rua, olhou em volta sem reconhecer nada. Começou a andar aleatoriamente, à procura de si próprio. A esposa ainda procura por ele, mesmo passados quinze anos do seu desaparecimento.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Šuštar.

Drago Šuštar viveu, na Eslovênia, na mesma época em que Vlad III reinava na Valáquia. Ambos foram sádicos, impiedosos e cometeram grandes atrocidades. Por ter combatido os turcos e não tolerar o crime, Vlad III tornou-se um herói da Romênia e da Moldávia e acabou inspirando o famoso personagem de Bram Stoker. Drago Šuštar, porém, torturava e matava sem motivos aparentes. Šuštar sofria de Transtorno Delirante Persistente, seguido da megalomania típica dos paranóicos, e, por isso, imaginava conspirações constantes, o que o levou a promover o maior banho de sangue jamais visto no leste da Europa. O nobre psicótico matou todos à sua volta, incluindo mulher e filhos. Não restou ninguém para contar a sua história. Os poucos que ouviram falar dele, preferiram enterrar todas as suas memórias. Hoje, Drago Šuštar perambula solitário pelas sombras do castelo, afugentando os invasores. Quando aquela mulher invadiu os seus aposentos, Šuštar puxou a sua espada e gritou com muita ira. A turista, apavorada, deixou o hotel naquela mesma noite. Mais uma vez, um hóspede desistia da estadia por causa do desconhecido fantasma.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pequena história da longa vida de um fracassado.

Ele estava consciente e ouvia todos os ruídos e as poucas vozes na Unidade de Cuidados Intensivos. Porém, não conseguia ver, nem falar e muito menos movimentar um único músculo. Ele havia fracassado em absolutamente tudo na sua miserável existência. Agora, com uma grande dose de frustração muda, constatava que não havia sido competente nem para acabar com a própria vida.