Ele passou os dedos de leve pelo corpo nu dela. Era agradável sentir cada uma daquelas curvas muito bem delineadas e revestidas por uma pele macia e perfumada. Em circunstâncias diferentes, seria improvável um homem como ele ter chances com uma mulher daquelas. Mas, em outras circunstâncias, ele também não teria grandes interesses nela. Gostava mesmo assim, apenas assim, como estavam. Beijou-a no pescoço e desceu com a língua até encontrar os seios que, mesmo ela estando deitada, permaneciam empinados. Ele sentia-se extremamente excitado. Mas, com ela, não queria ter pressa, tudo tinha que ser com calma, com carinho, aproveitando cada momento, cada detalhe. Ela havia sido a mais cara de todas, mas valia cada centavo pago. Nos dias de hoje, com todos os avanços da medicina, tornava-se cada vez mais difícil encontrar cadáveres tão jovens e belos.
Terça-feira, 29 de Julho de 2008
Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
Lobisomem.
O mais recente interno do hospital psiquiátrico insistia em dizer que era um lobisomem. Durante muitas semanas, isto seria motivo para piada. Seria. Porém, ao amanhecer, depois da primeira noite de lua cheia, se tivesse restado alguém parar rir, certamente não acharia graça nenhuma. Por todo hospital, pedaços de corpos estraçalhados tornavam difícil a contagem das vítimas: quarenta e oito mortos e um desaparecido.
Terça-feira, 17 de Junho de 2008
Vidas aos pedaços.
Antiga, sombria e em estilo gótico, a Igreja de Nossa Senhora das Almas era, por si só, um tanto sinistra. Porém, naquela manhã, tudo ficaria ainda mais funesto com os gritos de uma freira. A religiosa havia encontrado um coração, na pia batismal, tingindo de sangue a água benta. Mais adiante, encontraria uma perna num genuflexório, um braço no colo da imagem de Nossa Senhora, um pênis num confessionário e uma cabeça no altar. Por toda a cidade, todas as igrejas haviam amanhecido presenteadas com partes de corpos humanos esquartejados. Para investigar o caso, foi chamado o respeitado detetive Hermes. Sem precisar examinar muito o caso, o detetive já sabia que as partes não eram todas do mesmo corpo e que as vítimas eram padres. Padres aos pedaços. Irônico, também ele havia tido a vida despedaçada por um Padre. Hermes nunca falava da sua vida pessoal, por isso, ninguém imaginava os abusos sexuais que havia sofrido na infância. Aos colegas, bastava saber que aquele era o melhor detetive de homicídios. Porém, desta vez, Hermes já sabia que teria o seu primeiro caso sem solução. Passou a mão pelo pentagrama invertido que trazia pendurado ao peito, sorriu discretamente e continuou na igreja, observando mais um dos seus bem guardados segredos.
Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
Inferno online.
“Aceita um desafio contra o demônio?” — O desconhecido lançou o convite via chat e Thomas, cuja vida girava em torno da internet, apenas sorriu antes de aceitar. Tratava-se de um novo jogo online chamado Satan's Traps. Bastava preencher um formulário, aceitar as condições e pronto, já podia começar a jogar. Thomas achou incrível que, apenas através de uma imagem da webcam, o jogo tivesse gerado um avatar igual a ele. Mas, sem pensar muito nisto e sem ver o tempo passar, jogou e jogou até que, finalmente, depois de mais de 50 horas, chegou ao desafio final. O jogador usou todas as armas e golpes disponíveis, esteve quase para ganhar, mas, numa manobra inesperada, o adversário o derrotou. Imediatamente, um homem muito alto surgiu nas sombras do quarto e começou a rir enquanto observava Thomas, com toda a sua obesidade, ser sugado para dentro do monitor. Não adiantava lutar, a força que o puxava era enorme. O olhar de Thomas suplicava ajuda. Ainda rindo, e com uma voz cavernosa, o homem disse: — “Você é como todos os outros, nunca lê as condições antes de aceitá-las. Lá estava escrito que, se perdesse, a sua alma seria minha”. Sem nenhum argumento, Thomas gritou desesperado antes de ser totalmente absorvido pelo computador.
Segunda-feira, 9 de Junho de 2008
O banheiro do térreo.
Clara era sempre a primeira a chegar ao Club. Era ela a responsável por repassar todo o casarão e ver se tudo funcionava bem. Ela começava pelo terraço, passava pelo restaurante do segundo andar e terminava pelo bar, no térreo. Estes eram momentos angustiantes. Ela sempre via um homem de chapéu que ficava no topo das escadas, ouvia passos nestas mesmas escadas, via pessoas que circulavam. Todos vultos, todos iguais às pessoas das fotos dos “bons tempos”, como dizia o gerente. Clara tinha um medo muito específico, o de abrir portas. Principalmente quando se tratava do banheiro feminino do térreo. Lá dentro, até o ar parecia mais pesado. E foi mesmo em frente à esta porta que o seu coração disparou ao ouvir uma voz que vinha de trás. Tratava-se de um rapaz sorridente. Disse que era o novo empregado da casa e perguntou se ela precisava de ajuda. Mais aliviada com a companhia, Clara abriu a porta e entrou confiante no banheiro. O arrependimento foi instantâneo. Lá dentro, no canto mais afastado, com a mão estendida para ela, estava o mesmo rapaz. Ele tinha a garganta cortada de onde o sangue jorrava. Clara correu para a saída, desesperada. Atrás dela, o rapaz continuou chamando: — Clara! — Voz que, até hoje, ela ainda ouve todos os dias no hospital psiquiátrico.
Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
A vingança.
Jessica abriu o chuveiro e começou a tirar a roupa, quase em desespero, como se de algo peçonhento se tratasse. Ela havia suportado quieta os muitos casos amorosos do marido. Porém, ser abandonada era algo que não iria permitir, custasse o que custasse. Jessica sentia-se suja. Entrou apressada para o banho, escorregou e caiu para trás, primeiro batendo com as costas na borda da banheira, depois, com a nuca na parede. Quando acordou, não tinha noção de quanto tempo havia estado desmaiada. Tentou virar o corpo, mas apenas o pescoço obedeceu. Jessica entrou em prantos ao ver que nenhum dos seus membros obedecia aos sinais do cérebro, que não sentia nem a água que caía sobre o corpo. Ela gritou, mas ninguém ouviria, a casa era enorme e o jardim maior ainda. Era sexta-feira, a empregada só viria na segunda de manhã. Até lá, ela poderia morrer de sede, de hipotermia ou de hemorragia. Um fio de sangue, que ela não sabia de onde vinha, escorria com a água. Ela não tinha nada a fazer, além de chorar olhando para o próprio corpo nu e inerte. No quarto, sobre a cama, restava a ela a companhia do cadáver do marido, também ele nu, com o crânio desfeito por sucessivas pauladas.
Domingo, 1 de Junho de 2008
O último dia.
Os primeiros sinais começaram por uma forte interferência eletromagnética. As interrupções foram gerais: energia elétrica, telecomunicações, internet, transmissões de tv e rádio. Uma forte ventania varria tudo pela frente, agitava as árvores, levantava poeira, batia portas e janelas. Animais fugiam desorientados. A luz ficou cinzenta, mais parecida com um dia de eclipse. De repente, sem mais nem menos, o vento cessou. O silêncio era absoluto. Nenhum pássaro, nenhuma voz, nenhuma folha balançando. O cenário era melancólico e causava um aperto no coração. Uma série de traços brancos começou a cortar o céu cinzento. Em poucos minutos, o estranho silêncio seria quebrado por gritos de dor e desespero. Em menos de 24 horas, todas as formas de vida, excetuando alguma poucas bactérias, desapareceriam para sempre. Pelos próximos séculos, o planeta ficaria envolto num grande manto de poeira. Naquele momento, porém, ninguém imaginava nada disso. Em silêncio, apenas olhavam para o céu e admiravam o assustador, fascinante e último espetáculo das suas existências.
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008
Vida esvaída.
Naquela tarde amena de outono, nada explicava o suor abundante de Dionísio. Isto e a vontade constante de urinar. No espelho, ele não reconhecia a própria imagem pálida, cadavérica, com os olhos encovados. Ele não estava chorando, mas as lágrimas escorriam descontroladamente. Mais uma vontade de urinar e, desta vez, o que saiu da uretra foi um sangue espesso. A cena fez com que Dionísio perdesse a última resistência para segurar a náusea. E vomitou muito, até não ter mais o que pôr para fora do estômago. Então, começou a vomitar suco gástrico, bile e suco pancreático. A saliva escorria da boca como se tivessem deixado uma torneira mal fechada. Dionísio sentiu algo quente escorrendo pelas pernas, era uma diarréia incontrolável. A ansiedade transformou-se em desespero quando ele viu que o sangue já escorria do nariz, dos ouvidos, dos olhos. Desidratado, Dionísio sentiu uma grande vertigem e caiu quando ia tentar pedir ajuda. E ali ficou, esvaindo-se por todos os orifícios do corpo. Levaria dias até que os bombeiros descobrissem o corpo totalmente seco, alertados por uma vizinha que apenas queria reclamar da umidade que passava para o seu apartamento.
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008
Antes do amanhecer.
Deitada no chão do armazém, escondida entre as centenas de corpos ensanguentados, Ruth contava cada minuto que passava. Qualquer ruído poderia despertar a atenção dos vampiros. Por isso, ela precisava controlar a respiração e as emoções até que amanhecesse. Só então poderia sair dali em segurança e gritar e chorar. Uma lâmpada fluorescente, piscando por causa de um mau contato, ajudava a tornar o ambiente ainda mais sinistro. Ela via aquelas criaturas aparecerem e desaparecerem na luz e na escuridão. Às vezes, um dos vampiros encontrava alguém vivo e soltava um tenebroso grito gutural. Era o sinal para virem muitos outros que saltavam sobre a vitima como os pombos saltam para cima do milho lançado ao chão. Eles não eram nada elegantes e belos como os personagens de Anne Rice, não se limitavam a morder a jugular. Eram monstruosos, homens e mulheres com cara de morcego que estraçalhavam as vitimas. Ruth olhou para o relógio e suspirou aliviada, só mais uns cinco minutos e estaria a salvo. Porém, bastou o suspiro para que ela ouvisse um urro atrás de si. Em seguida, sentiu mãos que pegavam nos seus tornozelos e o corpo sendo arrastado por cima dos cadáveres. Os vampiros vieram todos na sua direção. Era a vez dela ser o milho dos pombos.
Sábado, 3 de Maio de 2008
666 visitas.
Hoje, o meu blogue de contos de terror recebeu a sua 666ª visita. Achei o número sugestivo e, por isso, fui ver nos relatórios de visitas quem poderia ser. Foi quando faltou luz aqui em casa. Nada de novo, pois vivo num casarão do séc. XIX, as quedas de energia são tão frequentes quanto o ranger do chão e o estalar dos móveis. Acendi uma vela para ir até o disjuntor lá no porão, mas fui interrompido pelo barulho de algo que tivesse, não caído, mas sido jogado no chão. Andei pelo longo corredor para ver o que se passava. Pensei que poderia ser um rato. No meio do caminho, senti alguém segurar no meu ombro. Virei sobressaltado e fiquei aterrorizado com o que vi. Olhando para mim, iluminada pela vela, estava a mesma velha do antigo quadro que eu havia tirado da parede e guardado no sótão. Ela olhou nos meus olhos e disse: "pára já de escrever estas coisas ou eu venho te buscar". Perdi os sentidos e, quando acordei, estava no sofá, com a tv ligada, sem sinal nem da vela, nem da velha. Porém, agora, enquanto escrevo isto, não consigo parar de pensar no que ela disse e de sentir um certo calafrio. Ah, alguém está batendo à porta insistentemente. Volto já.
Sexta-feira, 2 de Maio de 2008
Súcubo.
St Bathans era quase uma cidade fantasma. Na época das minas, o local chegou a ter dois mil habitantes. Agora, não chegavam a uma dezena. Robert tinha viajado mais de 400 km desde Christchurch, tudo para ver os fantasmas dos mineiros que, supostamente, à noite saíam do Blue Lake. Porém, para o lugar mais assombrado da Nova Zelândia, aquilo estava sendo uma decepção. Por isso, resolveu tirar algumas fotografias e ir direto para o Vulcan Hotel. O quarto estava gelado, mas o cansaço fez com que Robert adormecesse logo. Mergulhado num sono profundo, ele sonhou com uma sedutora mulher que se deitava ao seu lado. O sonho estava sendo agradável, mas uma súbita falta de ar e um frio intenso o fizeram despertar. Ao abrir os olhos, viu em cima dele uma mulher nua. Ela tinha uma expressão de raiva e gritava enquanto pressionava com força o peito de Robert. Desesperado, ele a empurrou e ela desapareceu nas sombras do quarto. Era Rose, a antiga prostituta que havia sido assassinada por um cliente. Em pânico, Robert fugiu da cidade. Mais tarde, ele acabaria por destruir as fotografias onde viam-se dezenas de espectros saindo do lago. Ele queria apagar para sempre as memórias daquele dia, mas nunca mais se livraria dos pesadelos com Rose.
Foto de Richard Cosgrove - press.co.nz
Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
O filho do diabo.
Tales havia contraído uma espécie rara de papiloma vírus, o Shope. Isto fez com que crescessem dois grandes chifres na sua cabeça. Desde então, foi isolado pela vila que o acusava de todos os males que acontecessem por aqueles lados. Tales era extremamente bondoso e não guardava ressentimentos, testemunhava a mãe. Mas as pessoas da vila não queriam saber, chamavam-no “filho do diabo”. Foi na madrugada de Páscoa que, enquanto todos dormiam, uma alcatéia invadiu a vila. Os lobos comeram algumas ovelhas, deixando carcaças e rastros de sangue pela rua. Na manhã seguinte, liderada pelo Padre, uma multidão invadiu a casa de Tales. O pobre rapaz ainda nem tinha acordado muito bem e já estava sendo arrastado, agredido e lavado com água benta. Em seguida, foi amarrado a um poste para ser queimado vivo. Enquanto era consumido pelas chamas, Tales sorria. As beatas confirmavam, assim, as suas suspeitas. Mas a verdade era outra. Tales sorria porque, pela primeira vez na sua curta vida, as pessoas estavam todas olhando para ele.
Terça-feira, 29 de Abril de 2008
Rock & Hell.
James entrou no estúdio, pegou a sua guitarra preferida e ligou o amplificador Marshall no volume máximo. Assim que os seus dedos deslizaram nas cordas e fizeram soar o primeiro acorde, ele entrou em transe. Lembrava-se de toda a sequência de notas e, se Rudy insistisse em não querer tocá-la com a banda, ele registraria os direitos sobre a música. Rudy não queria dizer a verdade, mas sabia que aquelas notas haviam sido psicografadas no fim de uma noite de muita cocaína e Jack Daniel’s. Não se tratava de uma música qualquer, mas de uma chave. Ao tocá-la, um portal seria aberto e deixaria passar os mais terríveis, sombrios e cruéis espíritos que poderiam existir. James, ignorante da verdade, continuava hipnotizado. De olhos fechados e com o volume tão alto, não percebia as monstruosas criaturas que saíam das paredes e o cercavam por todos os lados. Quando, finalmente, levantou as pálpebras, já era tarde demais. O isolamento acústico do estúdio não deixou os seus gritos passarem para fora. Algumas horas depois, uma histérica empregada encontraria James morto, ainda com o pavor estampado na cara, com o corpo ereto, empalado numa Gibson Les Paul.
Quinta-feira, 24 de Abril de 2008
Alma perdida.
Ele estava morto. E ele sabia disso. Já não tinha um nome, uma idade, um rosto. Era apenas um espectro invisível vagando pelas sombras da noite. De vez em quando, alguém olhava para trás ou sentia um arrepio na sua presença, mas ninguém o via. Já não havia nenhuma pessoa no mundo que lembrasse de que um dia ele tinha existido. Quando morreu, não viu nenhuma luz, nenhum anjo, nenhum túnel, nada destas coisas. Talvez ele não fosse bom o suficiente para o céu, nem tão mau que merecesse o inferno. E até mesmo o inferno seria melhor que aquela existência-não-existência. Ele viu surgirem os primeiros carros, a eletricidade, as diversas modas. Tudo mudava, menos a sua maldita condição de alma perdida, de espírito abandonado. Se fosse possível, suicidar-se-ia outra vez. Mas nem esta ilusão de controle a morte permitia. Mergulhou na neblina desejando que aquela fosse a última noite. Mas não seria.
Terça-feira, 22 de Abril de 2008
Amor eterno.
Quando Alex, inspirado, jurou amor eterno à Diane, todos os presentes ficaram emocionados. O que ninguém sequer sonhava, era o que ele entendia por eternidade. No terceiro dia da lua-de-mel, Diane não resistiu às dores e hemorragias e morreu. Alex ficou desesperado. Até àquele momento, só tinha conseguido comer uma das pernas dela. A idéia de mantê-la viva, como técnica de conservação, havia falhado. E, agora, já não sabia como preservaria tanta carne. Ele amava aquela mulher mais do que tudo. De tal forma que o único meio que encontrou para eternizar o seu amor, foi num ritual antropofágico. Mas, ao invés da coragem dos inimigos, como procuravam as antigas tribos, ele queria absorver todo o amor daquela mulher perfeita. Por vários dias continuou a comer a carne da esposa. Tirava as fatias, preparava e comia com devoção. O problema foi que nem tudo pôde ser congelado. Mas Alex acabou por encontrar uma solução, deu ao seu Rottweiler as partes que já não conseguia comer. No dia seguinte, comeu o cão.
Segunda-feira, 21 de Abril de 2008
Último andar, inferno.
Charles já estava parado no 11º andar há várias horas. Quando entrou no elevador, o jovem advogado estava radiante, tinha vergado em tribunal o Sr. Ivan que, mesmo derrotado, ainda mostrava os dentes, num sorriso de fazer gelar o sangue. Agora, pelo intercomunicador, ouvia: “tenha calma, Sr. Charles, em breve vai seguir para o seu destino”. A voz fantasmagórica foi tão arrepiante quanto o fato de ela saber o seu nome. A luz vermelha, de emergência, só fazia com que ele sentisse falta da escuridão das primeiras horas. Charles sabia que tinha muito calor, que o celular não tinha rede e que estava ficando desesperado e claustrofóbico. O que Charles não sabia, era que, em troca do sucesso, Ivan havia feito um pacto num ritual de magia negra e que, quem quer que ameaçasse este negócio demoníaco, teria a sua alma roubada. Charles sorriu quando o elevador voltou a descer, mas o sorriso morreu no mesmo instante em que passou pelo térreo e não parou. Com o advogado lá encarcerado, o elevador continuou descendo e descendo. Para sempre.
Domingo, 20 de Abril de 2008
O bilhete de um homem num inexplicável estado de coma.
Preciso ir dormir, mas estou apavorado. Sinto que vai ser hoje. Da primeira vez em que tudo aconteceu, uma voz sussurrou ao meu ouvido: “sete”. Não estava mais ninguém no quarto, imagine o meu susto. O que se seguiu foi ainda pior. Eu estava já num estado mental entre o dormindo e o acordado quando comecei a ouvir milhares de vozes. Com os olhos fechados, tive a sensação de começar a levitar, mas as minhas costas continuavam no colchão. Eu sei, parece loucura, mas eu estava flutuando sobre o meu próprio corpo. Ainda suspenso no ar, comecei a girar no sentido anti-horário. A velocidade era alucinante. Tentei abrir os olhos, gritar, mexer os braços, mas não consegui. De repente, caí e despertei quase em pânico. Ainda sentia o frio do vento provocado pela velocidade. E em todas as seis vezes foi assim. A mesma voz sempre veio primeiro e anunciou, em contagem decrescente, um número. É só intuição, mas sinto que hoje vou ouvir o “um”. Se isto acontecer, esta será a última vez e, não sei explicar porquê, estou com muito medo de não voltar mais. Se você estiver lendo este bilhete, isto significa que eu estava certo.
Sexta-feira, 18 de Abril de 2008
Surpresa!
Uma leve brisa foi o que a fez despertar. Enquanto levantava do frio chão, sentiu toda a cabeça latejar. Suspirou, gemeu, esfregou os olhos e, aos poucos, conseguiu habituar-se à pouca luz e descobrir onde estava: no cemitério. Rapidamente, tudo ficou claro. Era a tradicional surpresa de aniversário dos amigos. Ela lembrava de estar no carro e, depois, de acordar ali. Alguém tinha ido longe demais. Ela sentia que estava sendo observada e chegou a ver alguém no final do caminho de pedras. Chamou, mas a pessoa apenas olhou para trás e desapareceu na escuridão. Atrás dela, um homem, com uma garrafa na mão, começou rir. Ela adivinhou que a brincadeira estava prestes a terminar, só não imaginava o quanto. Com o coração acelerado e os passos lentos, foi em direção ao túmulo para onde o homem apontava. Ao chegar perto da lápide, gelou. Ali estava ela numa foto sorridente e com o seu nome por baixo. A data de morte era igual à data de nascimento, mas 27 anos depois. O homem com a garrafa riu mais alto e o grito dela agitou os cães das redondezas. O grito ficaria ainda mais estridente quando ela descobrisse que já não tinha metade do crânio.
Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
Espírito destrutivo.
Lúcio tinha uma forma muito peculiar de lidar com as adversidades. Destruía tudo o que o incomodava. Os poucos relacionamentos que teve, foram rompidos na primeira discussão. Nunca ficou mais de duas semanas em nenhum emprego. Se o cachorro da vizinha não o deixava dormir, um pouco de veneno logo fazia com que o desgraçado nunca mais acordasse. O outro vizinho teve o carro incendiado por o ter deixado mal estacionado. Lúcio partia a televisão mesmo que a culpa fosse da antena. A comida insossa parava sempre no chão, entre os cacos do prato espatifado. Um dia, Lúcio sentiu-se incomodado com a sua imagem. Sem vacilar, e com a ajuda de um trinta e oito, cobriu todo o espelho com pedaços ensanguentados do próprio cérebro.
Terça-feira, 15 de Abril de 2008
Morrendo aos poucos.
A maldita ratazana queria comer o velho Ernesto vivo, chegou mesmo a tirar um bocado do que restava da sua coxa direita, mas, num rápido ataque, ele cravou os dentes no pescoço do animal e garantiu o almoço do dia. Ernesto já não sabia há quanto tempo estava ali, vendo o seu corpo morrer aos poucos. Dos pés, das mãos e de parte dos braços e das pernas só restava o esqueleto com a pele morta ainda grudada. Dos cotovelos e dos joelhos para cima, a carne ia apodrecendo lentamente. As larvas acumulavam-se e o devoravam. Já se havia habituado ao cheiro nauseabundo dos seus dejetos e da própria putrefação. Ele não conseguia afastar as baratas que corriam livremente pelo seu corpo, só restava esperar que passassem pela boca e, assim, virassem alimento. Lá fora, Igor arranhava a porta e latia sem parar. O velho Ernesto só tinha um desejo, era que o pastor alemão conseguisse entrar em casa e, desesperado de fome, fizesse do dono a sua refeição. Assim, acabaria aquela horrenda, dolorosa e indigna morte aos poucos.
