terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Uma conversa no divã.

Posso dizer que não tenho traumas nem nada assim, doutor. Da primeira vez, os meus pais até foram processados por negligência por eu ter apenas seis anos, coitados. A verdade é que eu disparei contra o meu amigo só por curiosidade, e gostei. O segundo foi anos mais tarde, matei um ladrão que tentava roubar a nossa casa, mas foi por prazer de matar, não para evitar o roubo. Mesmo assim, virei herói da cidade. O terceiro foi na universidade. Provoquei um acidente de carro e quase morri junto com o meu colega. E, mais uma vez, eu não fui acusado de nada, as pessoas só demonstravam solidariedade comigo, o sobrevivente. Quer saber quantos eu já matei, doutor? Bem, não se assuste, mas eu parei de contar depois do trigésimo. Não sei explicar, eu preciso disso como quem precisa de nicotina, de cocaína, de cafeína. Já experimentei de tudo: armas de fogo, bastões, veneno mas, hoje, prefiro deixar os meus escolhidos assim, amarrados, olhando para mim enquanto sangram até morrer. Acho que é preciso dar este tempo para cada um, do seu jeito, pensar na efemeridade da vida. Concorda comigo doutor? Doutor? Oh, doutor, pelo amor de Deus, não acredito. O senhor já morreu... e me deixou aqui falando sozinho.

11 comentários:

Paulo Stenzel disse...

"Uma conversa no divã" foi escrito ao som de "Para Lá" - Arnaldo Antunes.

marcia disse...

Os outros contos são bons, mas este tem uma ligeireza e um final que me obrigam a elegê-lo como o melhor! eheheh. ;)

c-beams disse...

Tem um travo a "Hostel"... Muito bom... :)

Thaiza disse...

Ra, tenho que confessar que um sorriso de canto de boca surgiu no meu rosto quando cheguei a ultima linha.

Gis disse...

Bem, eu já esperava esse final, mas gostei como foi escrito. ;-)

marcia disse...

Quando teremos um próximo conto?...já estou com saudades! ;-)

Mrs.Mendes disse...

já que fazes tantos ocntos de mortes , podias dizer.me a maneira mais facil de morrer ?

Kiss

Paulo Stenzel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Stenzel disse...

Mrs. Mendes, entendo que esta é uma pergunta qualitativa, mas refere-se à forma mais agradável ou ao método mais eficaz? Para mim, dada a inevitabilidade deste evento, a forma mais fácil é a mais lógica: não fazer nada. Eu, que adoro surpresas, vou vivendo e espero para ver o que o destino me reserva. Enquanto isso, procuro fazer o máximo de coisas que me agradam para não ter que ter como último pensamento as minhas frustrações.

Raposa disse...

Dar piada á morte não é para todos...

Parabens!

Fico á espera do proximo :D

Anônimo disse...

Eu definitivamente sou seu fã! Gostaria que voltasse a postar seus excepcionais contos.